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BlogdosCaloiros

"Em toda a infância houve um jardim - isto é coisa de poetas" Agustina Bessa-Luís | BlogdosCaloiros is my blog in Portuguese Language curriculum. It aims to enhance the lessons using ICT and captivate cultural curiosity

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Um Sonho de Natal

 

 

sonho2

 

Imagem: http://images.google.pt

 

 


 

Era uma vez uma menina triste. Na escola, pouco falava e raramente ia ao bufete comprar uma sanduíche ou um pacote de leite achocolatado. Nunca almoçava na cantina. Os colegas admiravam-se!

 

Mal acabava as aulas, saia da escola, e passava sempre por uma grande pastelaria toda iluminada. A pastelaria era mágica! De um lado, viam-se lindos bolos de aniversário, revestidos das cores mais variadas e enfeitados com tantas coisas boas! Do outro lado, na zona de sala de consumo, via as senhoras a beber chá muito aromático e a comer bolinhos tão apetitosos! Havia também uma área para fumadores, mas aí só se bebia, o que lhe fazia lembrar o pai. E isso já não tinha nada de mágico!

 

Um dia, quando for grande, quero ter uma pastelaria! – sonhava Mariana – e aí comerei tudo o que quiser! A partir desse dia, ninguém passará fome. Tudo será diferente…

 

A menina voltava para casa, com o estômago vazio, mas os olhos maravilhados! En casa, esperava-a um pão mais ou menos seco e um copo de leite frio sem uma pontinha de chocolate. O pai chegava tarde a casa, quase sempre maldisposto, pois gastava o pouco que ganhava no jogo, em bebidas e em droga.

 

A fome já não era uma coisa que a perturbasse, estava habituada a olhar pela janela pequenina, com um vidro partido por onde entrava o frio nas noites mais geladas da casa do bairro de lata, e ver as crianças mais afortunadas a entrar e a sair da pastelaria, lá ao fundo da rua. Sentia um nó de inveja no estômago, mas logo tentava apagar essa emoção, pois sabia que a inveja era um defeito mesquinho. Mariana tinha um lindo coração!

 

Certo dia, estava sentada no passeio, a olhar mais uma vez para a pastelaria, do outro lado da rua. Estava, como sempre, fascinada com as delícias que podia admirar! Foi então que uma senhora, acompanhada de um rapazinho de faces celestiais, saiu. A campainha da porta fez tlim, e ela levantou a cabeça que apoiava no colo. Ficou a ver a senhora a afastar-se com o rapaz, quando a alguns metros, reparou que a carteira se abriu e uma nota voou.

 

Mariana levantou-se logo e apanhou-a. Ia entregá-la à senhora, mas, de repente, não a viu!? “Se calhar, ela quis que eu a gastasse num bolo! Mas a nota é tão grande!”. Então, meteu a nota no bolso e foi para casa, pois já se fazia tarde. Escondeu a nota muito bem para o pai não a descobrir.

 

No dia seguinte, véspera de Natal, quando estava em frente à pastelaria, viu, de novo, o rapaz e a senhora saírem da pastelaria com umas caixas enormes. Queria entregar-lhes a nota, mas por outro lado…

 

Decidiu segui-los para ver onde moravam. Como seria a casa? Bem, se fosse uma casa grande, não faria mal que tivessem perdido uma nota. Mas, lembrou-se de Mlle. Stéphanie, sua professora de Francês, que dizia muitas vezes:

 

- As aparências iludem! Nunca devemos julgar alguém pela imagem que apresenta!

 

Seguiu-os então até a uma zona que nunca tinha visitado, e quando eles entraram numa casa enorme, a menina decidiu esperar. Mas eles nunca mais saíam! E ela receava bater à porta para lhes entregar a nota. Tinha medo que pensassem que era uma ladra.

 

Já estava a escurecer muito. Então, achou melhor não ir para casa. Já ia apanhar uma tareia de qualquer forma! Não faria diferença, portanto.

 

Era noite de Natal. Aquela noite de Natal, era talvez a mais fria que ela já tinha sentido. E como tinha pouca roupa, estava muito desagalhada, sentiu-se gelada. Subiu então o degrau da entrada e sentou-se junto à porta, que apesar de frio, era mais confortável que o cimento da rua.

 

De repente, ouviu uma voz, vinda lá de dentro, que lhe fazia lembrar a voz de um anjo. Sem ela dar conta, a porta tinha-se aberto. Olhou para dentro, mas não via ninguém.

Então, com muito esforço, porque estava gelada e cheia de fome, levantou-se, e entrou sem fazer barulho. Mas, quase desmaiou com o aspecto do interior da casa. Não tinha nada a ver com o que era por fora. Estava cheia de teias de aranha e não tinha móveis. A única coisa que sentiu, foi o aroma delicioso de peru assado que lhe fez água na boca.

 

Oh! Como lembrou o Natal, quando a mãe preparava um peru assado, era ela tão pequena! –Mãe! Exclamou baixinho. Há tanto tempo que só comia pão, sempre sem nada, que o cheiro do peru foi como uma música para ela. E decidiu seguir o aroma que tanto a ligava à sua infância!

 

Encontrou-se, de repente, num quarto vazio. A porta fechou-se. Um armário, que ela nem tinha tido tempo de reparar que lá estava, abriu-se, e umas mãos invisíveis empurraram-na para dentro dele.

 

- Socorro, deixem-me sair! Acudam-me por favor! – Gritava Mariana, mas nada acontecia nem ninguém apareceu. Por fim, desistiu de gritar, cansada, exaurida, e entregou-se ao sono, apesar do silêncio aterrorizador do armário. Mal cerrou os olhos, algo inesperado aconteceu. A porta voltou a abrir-se! Por momentos, só viu uma luz electrizante que a cegava, mas depois, conseguiu ver o rapaz, que lhe estendia a mão.

 

- Finalmente vieste! – O rapaz disse isto com muito entusiasmo, o que era visível nas suas faces. Por trás do rapaz, podia ver uma mesa enorme! Uma mesa cheia de bolos, rabanadas, aletria, ovos moles, frutos secos, um enorme peru e o célebre bacalhau de consoada, bem à portuguesa. Ficou atónita a olhar! Seus olhos brilhavam de prazer! Até que recobrou ânimo e deu a  mão ao rapaz.

 

Uma música começou a tocar, e sem dar por isso, o rapaz tomou-a nos braços e começaram a dançar. Ouvia-se “Have yourelf a merry little Christmas”.

Duas senhoras, vindas do nada, puxaram uma cadeira e a menina sentou-se à mesa, quando a canção terminou. E reparou! A sua roupa já não era aquelas peças usadas, mas sim um longo vestido de seda muto cintado que realçava o seu corpo fino e elegante. As sapatilhas gastas, eram agora lindos sapatos de cristal. Pode então comer e provar de tudo o que quis, até saciar a fome. Quando se sentiu saciada, o rapaz olhou para ela, com um lindo sorriso e disse-lhe:

 

- Bem, agora chegou a hora! - começou o rapaz - Não sabes por que razão estás aqui?! Vou dizer-te a verdade! Eu sou um anjo, com uma missão muto especial! A de te conceder um desejo. Mas vais ter de demonstrar muita coragem! O que queres mais do que tudo, no mundo?

 

Mariana ouviu em silêncio. Depois de alguns segundos, respondeu:

- Obrigada por me concederes um desejo. Depois do que vi, acredito sim que és um anjo!

Eu  queria ter uma pastelaria, ter um Natal cheio de prendas e boa comida, ter uma casa e um pai que gostasse de mim… Mas… eu nunca conheci a minha mãe. Eu gostava de poder, pelo menos, vê-la.

 

- Então podemos começar, senhor Nataniel? Perguntou uma das senhoras, do fundo da sala.

 

- Sim! - respondeu o rapaz anjo. Num ápice, a cadeira onde Mariana se encontrava sentada, deu meia volta, e ela viu-se de novo dentro do armário.

Passados alguns segundos, a porta voltou a abrir-se, e Mariana viu três portas à sua frente, no meio uma mesinha, onde estava poisado uma folha de papel com a seguinte mensagem:

 

“No Natal, todos merecem obter um desejo, e tu escolheste o teu. Numa das portas está o que procuras… Boa sorte!

 

A menina poisou o papel, e dirigiu-se para a primeira porta. Quando a abriu, viu o seu pai a bater numa mulher. Seria a sua mãe?!

- Não!! Páre, por favor, pai! Imploro-lhe! Gritou a menina assustada. O pai olhou para ela, mas quando o fez, desapareceu e senhora também. Aquela não era a porta, certamente!

 

Avançou para a segunda e abriu-a. Viu-se numa floresta, e uma cascata linda fazia salpicar milhares de gotas de água cristalina. Ouviu um rugido! E um leopardo vinha a correr na sua direcção, dando um salto, ergueu as patas e… A menina fechou a porta num rompante, e deixou-se cair no chão, assustada.

 

Passados alguns minutos, voltou a levantar-se e abriu a terceira porta. Lá dentro, tudo era branco, e não havia nada. Só viu uma chave no chão que lhe parecia longe, e cada vez mais longe. Começou a correr para a apanhar… e apanhou-a, saindo logo do quarto.

 

- Eu não vi minha mãe! Mentiu-me, o anjo! Oh meu Deus, tenho de sair daqui! Gritou  Mariana, desesperada.

- Eu não te menti! Sou um anjo! Essa é a chave do teu coração. Eu não posso trazer a tua mãe de volta, mas a força do amor é infinita. Deixa que o teu coração se abra!

 

A menina assim fez. Esqueceu tudo. A pastelaria, a escola, o pai, a fome, a nota, o rapaz anjo, as portas. Foi então que uma mão suave e doce lhe tocou no rosto. Era a sua mãe. Sentiu logo que era sua mãe. Abriu os olhos e viu uma senhora lindíssima, com um olhar muito meigo.

 

Mas, de repente, tudo girou à sua volta e desmaiou. Quando acordou, Mariana viu-se em frente à mesma pastelaria. Compreendeu que fora uma mensagem de sua mãe.

 

Encostou-se à montra da pastelaria e fechou os olhos. Viu-se a subir uma longa escadaria que levava a uma porta dourada. Lá estava sua mãe, sorrindo, com aquele suave sorriso que ela logo reconheceu. Deram as mãos e seguiram. Depois desse dia de Natal, a menina nunca mais acordou do seu sonho. Mas será que foi mesmo um sonho?

 

 

José Digo Alves,Um Sonho de Natal

 

12 anos, texto original

 

Nota: Proibida a reprodução de textos originais dos alunos sem prévio consentimento dos mesmos.

 

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A Professora G.Souto

21.12.2009

 

Licença Creative Commons

 

Actualizado em 05.02.2010

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